sábado, 12 de março de 2011

Bleach-free Process.

Preciso do escrito para escrever.
Não conseguiria escrever sobre o calor do sol nos galhos e no rosto se, de facto, não o estivesse a sentir.
Não conseguiria escrever sobre o silêncio se, de facto, não o estivesse a ouvir.
Não conseguiria escrever sobre a necessidade de paz se, de facto, não estivesse a carecer.
Normalmente escrevo ao som de uma música que se adeqúe ao que quero transmitir, em que a balada é o ritmo com que desejo desenhar os meus parágrafos, marcar as minhas vírgulas e definir os pontos finais.
Sempre a mesma música, a repetir, até que a crónica esteja melodicamente findada.
Esta é a minha primeira ausência de som.
É este mesmo ritmo que quero levar: calmo e silencioso.
Todos temos necessidade de compreender certas coisas, mas por vezes não deveríamos simplesmente tentar afastá-las da nossa mente?
Não nos deveria ser oferecido o tempo para termos tempo para alguma coisa?
Ou a calma para podermos decidir o que queremos e não queremos que nos ocupe?
Ou o silêncio para escolhermos o que queremos escutar?
Poderia agora dizer, como seria esperado, “Passo a explicar”, mas não. Tal como as ditas “maçadas” que se metem à frente no caminho que mais ou menos vamos tentando esboçar e não são explicadas, eu não irei explicar nada… alguém irá entender, com a tranquilidade e os minutos necessários para isso.
Existe um agregado de pessoas que tenta sentir a Natureza, viver na paz e respirar.
Não compreendo qual é a urgência de tantas outras complicarem o que é (e não é) complicado, de procurarem sempre mais ansiedade e revolta para o espírito.
Não compreendo o porquê de não filtrarem o importante do secundário.
Será para eles a tranquilidade incomodativa?
Será para eles o cheiro natural desagradável?
Não assimilo a confusão sabendo que tanta confusão carrega.
O falso e o confuso existe, sem ser preciso nada mais.
Existe também pessoas para as quais não existe.
Chega. Não tenho de compreender.
Ainda que compreenda, tal dúvida não irá desaparecer.
Ainda que compreenda… não irei entender.
Preciso e penso que precisamos (permitam-me esta ousadia de arbitrar) de calma e silêncio.
Calma e silêncio para escolhermos o que nos ocupa e nos gasta, o que nos confia e devemos confiar.
Tudo e todos são tão breves, tudo e todos temos erros, defeitos… mas tudo (quase tudo) e todos (mas nem todos) temos algo de bom, de bonito, de eterno.
No meio da nossa rotina, mais ou menos arrojada, no meio da nossa estrada, seja mais ou menos cobiçosa, vão-nos aparecendo pedras no sapato, correntes no mar, silvas na relva…
Algumas vezes pego na prancha e enquanto lhe renovo o wax penso em tudo o que tenho para resolver, deixo que a confusão se apodere da minha alma e quase como automaticamente, todas as pessoas, todas as citações e todos os problemas tomam o mesmo peso.
Atropelam-se, empurram-se para entrar no metro, gritam uns com os outros, mentem descaradamente em nome de um nada que não passa de cobiça, maldade ou… um nada com nada a justificar.
Nesse momento desconfio, riu-me para dentro enquanto choro por fora, ou riu para fora enquanto choro por dentro. Nem sei bem o que faço.
Duvido que essas vozes também saibam o que contam.
É como se num café ao fechar os vistos, ouvisse muitas pessoas a conversas, risos, discussões, desabafos e lá no cavado… o som das teclas de um piano (ou de um violino), a calma, o silêncio a tocar, a melodia do jeito.
Fácil de se entender este processo.
Depois, onde realmente importa alguma coisa, existe uma voz que se cala em cada rasgada, um amigo que se destaca em cada remada, um objectivo que se levanta em cada tubo, cada parede, uma despoluição… Paz.
Sento-me na prancha, cansada, e separo o útil do agradável, quem quero de quem não quero, o que quero do que deveria querer, o importante do urgente, o que faz parte da vida do que é a minha vida.
Escolho prejudicar-me por algo que considero essencial, escolho não escutar todas as pessoas mas deixar apenas umas três ou quatro (e o piano que entretanto se transformou numa guitarra velha), escolho simplificar, sentir e ser.
Escolho principalmente ser. Escrever o escrito.
Esquecer a corrente e ver a cor da água do mar, sentir a sua textura (se é que o mar tem textura) e ouvir as ondas rebentar. Tentar ter de tal forma os ouvidos apurados que consiga ouvir a formar a vaga, o crescer, o criar. Tenho uma ideia!
Uma concha em cima de uma rocha, estão a ver?
Simples.
Não preciso que seja uma concha muito grande e especial, nem uma rocha que se transfigura. Apenas: uma concha em cima de uma rocha.
Apenas o apenas e apenas isso.
Existem famílias que se vão separar pela natural complicação que a vida carrega, mendigos por injustiças, presos por mentiras, pobres por egoísmo, velhos que nunca foram jovens, jovens que sabem que não chegaram a velhos, existe amor sem comodidade, amizade sem interesse, a oportunidade de errar e do arrependimento, a calma existe, a paz de consciência e… a satisfação.
Fácil de entender este processo.
Fácil de entender que é preciso parar para avançar.
Fácil de entender que se deve escolher o deveras sentido.
Eliminar as segundas vozes, os figurantes, e encarnar a nossa personagem favorita.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Duckdive no Facebook.

O Duckdive já está no Facebook.
Adiciona e mantem-te a par das novidades!

Duckdive

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Dankie, beste vriend.

O lápis pousou na folha com leveza. Manteve-se estático.
Queria escrever mas não sabia bem sobre o quê. Faltava a inspiração, o tempo, a calma, mas ainda assim… queria rabiscar.
Por vezes é complicado escrever um texto sem que tenha o ambiente propício a isso.
Cais do Sodré, 13h46.
Estou sentada à beira rio, com o cheiro do marulho muito sentido, rodeada de gaivotas, musica nos ouvidos.
Apesar do vento, do frio e das gotas de água que de vez em quando me batem nas mãos, não trocaria (e de certo muitos de vocês também não) pelo quente do café, a mesmice das paredes.
Depois, devagar, a caneta já se movia, desenhava letras e símbolos no papel e eu ainda não me tinha decidido.
Parecia que a mão, com toda a vontade que tinha em escrever, tinha-se conseguido libertar do resto do corpo, tornar-se independente.
A mão era um corpo, com cabeça, tronco e membros, maior e vacinada, que agia por si só.
Deixem-na crescer e tornar-se responsável pelos seus actos!
Os olhos começaram a fechar, negavam a imagem certa do que se estava a passar.
Senti um sopro na cara. Vi, de novo, a minha mão, mas eu estava na água, sentada na minha prancha.
É impressionante aos outros como é que nós, surfistas, amantes do mar, temos sempre tendência em estar mais perto da Natureza.
Esta urgência, quase ‘desespero’, esta insistência em sair do dito ‘normal’, do socialmente rotineiro.
Queria surfar. O corpo estava vegetal e só acordaria daquela espécie de coma para apanhar uma onda.
Tirando essa situação, continuaria estanque, morto no movimento. Salvo a mão, que continuava a dançar e desenhar círculos de cores.
Sempre que estou na água sinto que é o local certo onde deveria estar naquele momento, mas desta vez, havia qualquer coisa de errado.
A mão, essa, continuava a passear entre as milhares de gotas, ansiosa por me dizer algo.
Nós perdemos, nós ganhamos. Temos aquilo a que chamamos de liberdade.
Somos todos livres, mesmo existindo relações a que damos vulgarmente o nome de ‘amizade’ ou ‘amor’ para nos juntarmos em grupos, para fazermos parte de alguma coisa e sermos, realmente, alguém.
Se formos a tentar saber qual é o valor de mil pessoas no Universo, não é praticamente nenhum. Parecemos insignificantes formigas, tontas, no nosso minúsculo Universo, criado à nossa medida.
Vivemos, muitas vezes, como se não existisse mais nada para alem disso, para além das leis a que estamos sujeitos, nada para alem da nossa ‘costa’, nada para alem dos afazeres, nada para alem do que vemos.
Vivemos com o que as outras formigas nos dizem ser certo.
Mas, deu-me para pensar no que efectivamente nos torna diferentes e faz com que a nossa existência seja preciosa. São as ligações, as relações. Essas, são a razão.
Existem, no meio do formigueiro, algumas ou alguma que nos faz pensar que seriamos capazes de abdicar de nós mesmos pela ‘amizade’.
Todos crescemos e somos atropelados uns pelos outros, apesar de irmos todos para o mesmo lugar. Todos envelhecemos, perdemos, mas nem todos esquecemos.
Esquece quem não tem de quem se lembrar. Não sejamos tão impertinentes com a vida. Lembrei-me de quem, daqui a uns anos, poderia nunca mais ver. Lembrei-me de quem, daqui a uns anos, ainda me vou lembrar. Espero, claro, conseguir continuar com esta união. Também vocês esperam continuar com algumas das vossas, mais do que as outras. Espero conseguir ver se teve sorte, se continua a mesma, se está a sair-se bem, se tem quem faça o que faço agora por ela.
Vamos refrescando as nossas relações, fazendo ‘upgrades’.
Mas existem sentimentos que não mudam.
Existem formigas que valem mais que as mil, por quem subíamos ao monte mais alto e abanava-mos uma bandeira branca com toda a pujança, para tentarmos aumentar o nosso tamanho, por quem parávamos o mundo para as deixar passar, por quem quebramos esta nossa rotina, esta nossa vida egoísta por natureza.
As pessoas, pelo menos como essa de que me lembrei, valem a pena!
Aliás, são o que nos torna imensos, o que nos faz estar, o que nos faz ficar, ir e voltar. Se uma pessoa, por mais minúscula que seja, consegue marcar a vida de outra, pelo menos na medida em que o seu ‘estatuto’ não muda ano após ano, então, não seremos assim tão pequenos, tão fracos, tão insignificantes.
Existem pessoas por que faz sentido perder o comboio para apanhar o próximo, por quem vale a pena esperar para podermos ver uma nascente em conjunto, por quem vale a pena correr, acreditar, surfar, escutar… ser.
É um ciclo. Todos nos movemos por alguém, ou por alguns ‘alguém’.
E, infelizmente, todos nos esquecemos dia após dia de agradecer a quem devíamos. Esquecemo-nos de lhes agradecermos por nos chatearem, por nos ‘esmolarem’, por nos cansarem, por nos fazerem sentir pequenos ao lado deles.
Se não fosse isso, não faria sentido cá estar.
Agradecer por nos gastarem, por fazerem de nós úteis, por fazem de nós alguém no meio da multidão.
Uma das pernas tocou na outra com o balanço das ondas e, aos poucos, fui começando a sentir-me. O coração gritava, os músculos enrijavam, e os braços remavam com toda a força.
Acordei! Não estava a surfar de facto, continuava sentada, no Cais do Sodré, e eram 14h24.
Ah! Mas, antes que me esqueça, obrigada.
Dankie, beste vriend.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Criolo.

O que somos nós afinal, se não um pouco do que os nossos são?
A vida faz questão de nos recordar de vez em quando que não estamos sós.
Não tenho muito tempo, mas tenho-o. Calma.
Se fizermos um pequeno esforço ou tentarmos encontrar um pouco de tempo mesmo quando o tempo já é pouco, conseguimos listar uma multidão de situações em que alguém, seja por obra da casualidade ou não, nos lembra de que sozinhos e apagados dos outros, não passamos de vultos, servos da confraria.
Neste primeiro dos cinco dias, não me apetece falar do surf na Cortegaça, das ondas da Torreira ou do vento de Espinho. Valeu-me a viagem de autocarro. Valeu-me ninguém.
Com ou sem alguém, estava sentada junto à janela, de pernas e cabeça dobradas sobre o bloco em que agora pouso o lápis.
Deixava que o sol me enroupasse a cara, que as árvores andassem para trás e os traços brancos do chão fossem engolidos enquanto tentava decifrar o que é que passeava na minha cabeça nesse urgente instante.
Não estava fácil. Fosse o que fosse, devia estar escondido, prudente e… sozinho. Tal como eu, tal como nós.
Nisto, numa das várias vezes em que o autocarro quebrou o seu ritmo de acelerar e o meu de meditar, reparei num grupo minimamente gigante de crianças azuis.
Devia de ser mais uma daquelas colónias de férias para entreter a miudagem.
Dois deles, de ar amável e enfadonho, olharam para mim e apontaram para onde estava a escrever.
São impressionantes as conclusões imprescindíveis à vida que aspiramos em micro segundos.
Ele vivia numa casa longe do mundo, ele não se sentia só. Não estava.
Mesmo eu, nesta minha tentativa falhada de me afastar de todos, de me deparar apenas comigo, mesmo eu neste meu pequeno egoísmo, escrevo neste momento sobre outros.
Estou aqui por causa dos outros. Por causa das coisas.
Escrevo, vou surfar, ando, sorrio e choro porque existem sempre outros. Existe sempre alguém. Ninguém é intocável, por mais que se faça.
Até neste autocarro, poderia dirigir-me a qualquer um. Todos têm uma história, todos têm alguma coisa a dizer se me apetecer falar. Todos me podem fazer rir.
Alguém, cá dentro ou lá fora, talvez me dê um ombro se me apetecer chorar.
Mesmo quando seguro na prancha e vou para dentro de água a considerar que estou, finalmente, sozinha… até ai, interiormente, faço um ‘zoom inverso’ como se estivesse a olhar do céu para mim mesma.
Vejo-me sentada no meio da água, segue-se a areia, as dunas, as estradas, as casas das pessoas, mais ruas, mais estradas, mais praias, mais e mais pessoas, que comem, dormem, saltam, riem, cantam… surfam…
Estou realmente longe… mas não estou sozinha.
Quando o vento me assopra a cara consigo ouvir as crianças a cantarem na Índia, um mendigo em Israel, o violino na Argentina, um grupo de amigos a tocar viola em Itália, os camelos e as feiras em Marrocos, as mulheres a esfregarem a roupa em África, as luzes do Japão, o wax a raspar numa prancha na Austrália (e acho que deve ser o Bruno, um amigo meu que foi para lá viver com a namorada alemã).
Poderia ouvir mais se assim quisesse. No entanto, estou ali, a fazer o mesmo que tento fazer agora. Dessa vez não alcancei, desta não alcanço e na próxima não alcançarei.
Não consigo acreditar que eu seja insensata por pensar desta forma, quando são os outros que não contemplam em seu redor e apenas dão valor às suas pessoas, aos que pensam como eles, inaptos de seguir as pegadas de um estranho.
O que é que importa a cor da pele de alguém?
Somos todos iguais. Estamos todos ligados.
Juro-vos que estou a respirar e estou acordada, garanto-vos isso.
Bem sei que para muitos, estas palavras não passam de um sonho.
Mas existe quem as torne reais, em todos os cantos do mundo existem esses… que não estão sozinhos.
Muitas vezes concordamos com o que temos de concordar e pensamos que temos sempre de ter mais do que precisamos.
Só que, mais uma vez e como sempre… o ritmo acelera. Uma musica.
A bateria começa a bater mais rápido, marca o ritmo, e por sermos as pessoas do mundo… não podemos parar para pensar nesses pormenores, não é assim?
Não serão estes os mais importantes?
Não são estes que dão valor e significado à vida?
Não serão estas pequenas realidades que fazem com que esta passagem pelo Planeta Azul seja mais do que apenas isso?
Bom… agora não tenho tempo. Mas devia. Devíamos! Porque o tempo é agora.
Ainda no autocarro, escrevi numa folha em grande: “Bom dia!”. Mostrei-lhes pela janela e tentei soletrar o que tinha escrito.
Entenderam-me. Reacção em cadeia!
Em menos de um minuto a viatura voltou acelerar, as árvores a andar para trás, os traços brancos do chão a serem engolidos.
Quando olhei, vi todo aquele tropel a acenar-me. Pelos movimentos dos lábios, compreendi que também estavam a dizer “Bom dia!”, mas num tom mais continuado.
Neste dia não estava à espera de receber os ‘bons dias’ de ninguém.
Hoje quis, e quero, agradecer a todos pelo simples facto de existirem. A todos!
“Vivemos tão ligados uns aos outros, neste arco, neste ciclo sem fim.”
Obrigado.

domingo, 14 de novembro de 2010

Surfing In Vita.

Este texto vai soar-vos um pouco a ‘deja vu’, de um outro de Pedro Adão e Silva chamado “A Vida A.S. e D.S.”, no entanto, depois de ler esse artigo, não pude deixar de escrever um pouco sobre a história de Nuno Vitorino e tantos mais que, de uma forma ou outra, nasceram de novo depois do surf.
Por vezes fico a reflectir se o surf é mesmo para todos, ou se é ele que nos escolhe. Quase como quando falam de Deus às crianças. Dizem-lhes que Ele não escolhe ninguém mas é preciso estar-se aberto e predisposto para verem, para sentirem e para entenderem, logo, por um lado, existe uma certa selecção natural.
Ele não pode ajudar nisso, seguidamente, os que não estão também não vêm, não sentem e não entendem.
A meu ver, assim acontece com o surf. É urgente estar-se aberto e predisposto a sentir o que mais de espectacular o mar e a Natureza nos têm para oferecer, é preciso amar, é preciso querer muito, é preciso falhar e voltar a tentar, é indispensável ver as ondas com outros olhos para se ser surfista, com S grande, para que o surf nos envolva e não só faça parte, como se transforme no nosso modo de vida.
Como dizia nas outras letras, Nuno “ficou tetraplégico desde os dezoito anos quando foi ferido acidentalmente por um disparo de uma arma de fogo manuseada por um amigo”, mas não desistiu da vida, não se limitou à existência e foi atleta paraolímpico.
Como digo, o melhor que a vida nos oferece somos nós mesmos. Ainda tinha isso na gadanha e não desperdiçou.
Agora, aos trinta e dois anos, faz surf. Se foi predilecto ou não, não consigo apurar. Mas é surfista: faz, sente e entende.
Com um conjunto de amigos criou o “Estado Liquido”, para ajudar jovens com deficiências a superar todas as contrariedades que o surf ostenta.
Nuno contemplou nesta experiencia de contacto com a água, com o sal, e com o sol, uma nova vida. Ou melhor, a vida. Viu no mar uma forma de ajudar os outros, um objectivo, uma razão para alguma coisa. Sentiu uma recompensa momentânea pelo esforço.
Já nos Açores, mais especificamente na Fajã da Caldeia de Santo Cristo, situada na ilha de São Jorge, a paixão pelo surf falou para alem da razão.
Carlos Valério, tem cerca de trinta e seis anos, dos quais, sete passou a viver sozinho neste paraíso.
Construiu uma casa de raiz na fajã e reformulou completamente o seu estilo de vida. Surgiram muitas dificuldades a nível profissional e pessoal, o surf e a paz que ele nos oferece deram-lhe uma nova filosofia, mostraram-lhe um novo rumo.
“O preço da saúde é sem duvida o mais caro”, diz-nos ele.
Quantos Carlos existem por ai fora? Quantas são as criaturas que jogam com o relógio para poderem surfar uma hora por semana? Uma não, mas, a hora por semana.
Quantos não o vêm como vida dentro da rotina? O desejo, a crença.
Em Santos, no Brazil, Valdemir Pereira de trinta e sete anos, com tem deficiências visuais, quis surfar.
Sentiu, de certo, uma vontade de entrar na harmonia das vagas, de sentir o sal da água a fugir-lhe dos pés, a energia, o poder, uma vontade gigante de ter o bom sem o mau.
“Os sentidos estavam alerta para a direcção do sol, os retrocessos da maré, o som das ondas.” O surf no seu estado mais puro.
“Uma pessoa não está limitada ao que vê.” – disse Val que sonha em poder dar aéreos e ter a sensação real de voar.
Depois do surf, sentiu coragem para tentar outras actividades como a capoeira.
Superar os limites é uma forma de demonstrar que deficiência não equivale a falta de capacidade ou inteligência.
E, fora destes casos extremos, existem resmas de casos em que este desporto (se assim o podemos avaliar) mudou, continua a mudar e dar vida a muitas pessoas.
Ocupando ele o estatuto de refugio, de paixão, de utopia, de vicio, de estado de liberdade, de companhia, de compensação, de razão, de felicidade… ou qualquer outro, conforme quem conta, facto é que existe mesmo “A Vida A.S e D.S.”, marcada pela desfiguração das pessoas arcaicas e triviais.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

We can make the World win! - O Apelo.

Sentada na areia, com areia à frente e areia no sangue.
Uma vez, num texto escrito por Nuno Lobito, li que somos “escravos da nossa própria existência”. Na altura, som todo o meu cepticismo, achei a frase totalmente verdadeira.
No entanto, depois de pensar um pouco mais no assunto, depois de deixar a frase entrar-me como sal, cheguei à conclusão de que não era assim tão verídica.
Nós não somos escravos da nossa existência, nós não somos, logo à partida, servos.
Somos nós que decidimos o que somos, ou pelo menos, pelo que queremos lutar para ser.
Por mais que a sociedade se encarregue em tornar esta reflexão numa utopia, existem outros pequenos momentos que estão ao nosso total alcance e a tornam autêntica.
Atiram-nos à focinheira todos os dias que vivemos num mundo injusto, que por mais que façamos nada nos irá levar a lado nenhum.
Desaguam notícias de que a vida está (ainda mais) difícil, que existem problemas sem solução acessível, exemplos de vidas que perderam o brilho e nos cortam nos sonhos.
Dizem-me (dizem-nos) que as multidões de jovens esperançosos que existem e têm o espírito de mudança, não têm impacto nenhum.
Talvez ainda não tenham porque os ‘adultos’ sábios e experientes perdem essa alma, esquecem-se dessa inteligência, perdem-na, embora concordem e a sua vontade seja comum. Não agem.
Já interiorizaram o facto de serem “escravos da sua própria existência”.
Claro, sim claro, falo de uma forma generalizada, tal como anteposta a frase.
Resta-nos esperar que essa massa de jovens se torne adulta e acreditar que irá ter a força necessária para não se banalizar?
Ou será que podíamos começar desde já a mudar, a libertar-nos dessas tais cadeias hipotéticas?
Convido-vos a saírem, pisarem a areia, a terra, a água…
Convido-vos a sentirem o ar, a chuva e o sol. Convido-vos a abrirem os braços à natureza e à existência, a deixarem que o corpo sonhe por um bocadinho, a fecharem os olhos, a ouvirem, e principalmente… a serem o que outrora foram.
Convido-vos a porem de lado a vingança nos outros tantos iguais a vocês, os outros que também foram injustiçados e se iram querer vingar.
Convido-vos a darem o vosso melhor, a darem sem esperar sempre receber.
Peço-vos que dêm um modelo a seguir, que ajudem e aceitem ser ajudados.
É errado desistir do difícil, cruzar os tentáculos e esperar que os próximos façam por nós.
Deixem o “no meu tempo…”, o vosso tempo é agora!
É obvio que é mais fácil abonarem-me com uma lista de problemas, uma série de argumentos para me desvendarem que “não há nada a fazer”, mas desculpem-me, vou continuar a acreditar em vocês.
Eu acredito, acreditem!
Como eu existem mais do que vocês avaliam. Aliás, existem mais como vocês que ainda acreditam do que imaginam existir.
Não se deixem ganhar, não se deixem disseminar.
Convido-vos a reflectirem um bocadinho na beleza da vida humana e no que o planeta vos oferece gratuitamente.
Toda a gente, em qualquer parte do mundo, precisa de outro alguém. Somos 7 bilhões no mundo. Mesmo quando achamos que estamos sozinhos, não estamos, de todo.
Quando consideramos que ninguém vai querer o que queremos, vamos tentar lembrar-nos da dimensão da raça humana.
Todos queremos o mesmo.
Cada um escolhe o seu caminho, cada um decide pelo que lutar, decide no que acreditar, decide se irá ser fraco ou forte, se será escravo ou pioneiro.
Uma coisa é certa, ninguém é de ninguém e o melhor que a vida nos tem para oferecer somos nós mesmos.
Comecem por tentar tornar o mundo num lugar melhor para viver, mesmo que por agora, seja apenas o vosso mundo e o das pessoas que vos rodeiam.
Acreditem na reacção em cadeia.
Ela existe, garanto-vos!

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Come as you are, as a friend...

As surfadas com vista para a ponte do Tejo sempre foram muito diferentes das dos outros dias, sempre foram melhores!
As surfadas à noite, contigo, sempre foram uma viagem muito maior.
Sempre aprendi muito mais, sempre sai mais cansada, sempre sai mais culta. Sempre. Até ao dia.
A escolha era, ou foi, minha. Inteiramente minha. A escolha foi feita sem o teu consentimento.
Mas neste momento, estou aqui, sem nada mais por dizer, só eu. Como sempre fui. Pura, de caneta e lápis na mão, outra vez.
Sem duvidas do que quero, do que era certo e do que será certo.
Esfrego a caneta para que a tinta não me falhe quando, daqui a breves minutos, estiver de lágrimas a arrefecerem-me o vulto e travão no coração.
Fui para a praia cedo contigo, deitadas na areia de barriga para baixo, falei-te do que fui, do que sou, do que quisera ser. Gostava de estar ali.
Naquele momento, por mais que fossem as propostas, não preferia estar em qualquer outro lugar, nem a ouvir qualquer outra voz.
Contaste-me a história da tua vida. Eu contei-te a história da minha vida.
Pediste para te contar mais, eu contei. Eu pedi. Tu contaste. Lembranças.
- Descansa.
Dizias-me tu, muito mais cansada que eu.
Um dia. Dois dias. Três dias. Quatro dias. Como diria o Diogo “Quererias que notassem?”, ninguém notou nada. Somos só duas. Ninguém se importa com o que fazemos ou não, salvo os outros que se juntam connosco, mas também lá se vão juntando com os deles, os outros dos outros que já não são nossos, e por assim adiante…
O segredo para se ser feliz está em procurar-se vários breves momentos de felicidade, disse-me ele. Procurei-te. Não te encontrei. Julguei que nunca mais te iria encontrar.
O que é que nos aconteceu outra vez? Quem foi que errou desta vez? Isso não me importava muito. Uma vez uma, outra vez outra.
As pessoas crescem, as pessoas melhoram, as pessoas mudam. Mas os sentimentos não cambiam. Ou melhor, diversificam, mas os grandes, são quase como inevitáveis. Assim como tu.
O que me importava é que estava sentada na praia, com vista para a ponte do Tejo, à mesma hora que costumava estar contigo… mas sem ti.
Sem ninguém para me fazer perguntas, para me meter a mão por cima do ombro. Sem ninguém para me apontar.
Como antigamente, tinha outras propostas, todos nós temos sempre, pelo menos, uma segunda escolha. Mas, como outrora, eu queria estar ali contigo, mesmo que não estivesses tu comigo.
Será que estavas bem? Será que também te lembras do que aprendemos uma com a outra quando, em princípio, não teríamos nada para ensinar?
“Come as you are, as you were, As I want you to be, as a friend, As a friend, as an old enemy.”
Quero que venhas, neste momento, tal como és, como uma Amiga. Sinto saudades tuas.
Quero que me voltes a contar tudo de novo, quero que me digas como estás, quero que me lembres de uma canção. Esqueci-me neste momento.
E afinal de contas… ninguém vai notar nada. Ninguém vai notar a tua falta, nem a minha, nem a nossa.
“Take your time, hurry up, Choice is yours, don't be late, Take a rest, as a friend”.
Demora o teu tempo. Eu estou a pensar ficar por aqui. A escolha é tua. Eu já apurei.
“As I want you to be.”
Mas não venhas alterada. Quero que venhas tu e não outra pessoa qualquer.
Não convides outro ‘eu’ para encarar o teu. Se assim for, anteponho que não venhas.
“And I swear that I don't have a gun, No I don't have a gun, no I don't have a gun.”
Desta vez não estou armada. Deixei a armadura para lá da memória. Podes atacar que eu não me vou defender, podes tirar sem repor.
Não pode ser normal, mas obrigada!
Gosto de te ter de volta. Gosto de surfar contigo. Gosto de ser. Gosto de estar.
Gosto de ti. Gosto do Mar.